Há alguns anos, “Toca Raul !” era um “bordão” muito utilizado pelo meu amigo-parceiro Daniel “Lanchinho” quando íamos assistir aos shows dos amigos pelos palcos e botecos de São Paulo.
Hoje isso é quase um jargão nacional, repetido a exaustão, de barzinhos empoeirados a grandes palcos consagrados. Até no show dos Paralamas o Herbert Vianna mandou um “viva a sociedade alternativa...” para deleite da platéia dos jovens “quase quarentões”, como eu, aliás...
Não sei se foi o Daniel que inventou isso, só não me lembro de ter ouvido alguém dizer isso antes dele.
O certo é que Raul se foi há vinte anos e a cada dia que passa, fica mais vivo. Dividendos para seus herdeiros, advogados e novas gerações descobrindo os mistérios e mágica de sua música.
Certamente Raul foi um artista um tanto à frente de seu tempo.
Possivelmente tenha nascido mesmo há 10.000 anos atrás.
Nada disso é impossível, ou mesmo explicável, quando se trata de Raul Seixas. Melhor é não tentar entender. Bom é ouvir, (re)descobrir.
Fui um adolescente fã de Raul, daqueles de usar camisetas e ter todos os vinis disponíveis nos anos 1980.
Curiosamente gostava mais da fase pós-Philips, dos discos da fase Warner. Os primeiros, apesar de gostar, me assustavam um pouco. Me identificava mais com a fase “Maluco Beleza” do que com “Gita”.
Passado tanto tempo, consigo entender que aquele artista (e ser humano) estava no seu caminho evolutivo em direção, infelizmente, ao seu fim.
Caras como Raul sofreriam muito num mundo como o de hoje, se não conseguissem transcender as suas próprias dificuldades. Não só as coisas do alcoolismo (isso é curável), mas principalmente com a integridade e profundidade das linhas que escrevia e interpretava em suas canções.
É uma pena ! Um ser humano sensível e talentoso a menos. Um pai, um marido, um filho, um amigo...se fosse meu pai preferia ele vivo, perto e bem...mas a vida, definitivamente, não é como a gente gostaria.
Deixemos de coisa e sigamos de encontro ao melhor de tudo isso: sua música !
Até porque: “ ...O que você tem pra dizer / Ouvi há cem anos atrás/ O que eu faço agora / Você não sabe mais...”
Deixa eu calar a minha boca e curtir esses CDs remasterizados, após tantos anos de silêncio de Raul em meus ouvidos.
Claro que é melhor uma obra sempre relançada do que fora de catálogo, mas a gravadora poderia disfarçar um pouco sua ânsia de ganhar dinheiro e fazer, pelo menos, um encarte-livro, com fotos, material inédito e caprichar mais nos bônus-tracks, afinal o preço de R$ 100,00 não é exatamente uma bagatela que todos podem dispor.
Toca Raul !!!!



